Demorou ainda um bom tempo para que eu pudesse provar o Bollito do Fasano e virar freguês costumaz de Seu Ático, que hoje em dia tenho o privilégio de encontrar ao menos uma vez por mês às Quartas-feiras no Parigi, quando nem olho o cardápio - afinal, é dia de Bollito.
Depois do resultado da comparação dos métodos de preparo do Boeuf Bourguignon Sous Vide e Tradicional, resolvi deixar de lado a receita do livro "O restaurante Fasano e a Cozinha de Luciano Boseggia" e partir para a minha leitura do prato. Queria certamente prepará-lo sous vide, e aproveitar para brincar um pouco com meu recém-adquirido arsenal de truques ditos "moleculares" (já comentei que detesto o termo...). Obviamente, dá para preparar a receita de maneira totalmente tradicional; basta checar a receita na Biblioteca UOL (o livro é de 1993 e está fora de catálogo faz tempo). Mas a versão que eu inventei ficou bastante boa, apesar de pedir equipamento adequado e pelo menos um ingrediente exdrúxulo, porém não mandatório, a transglutaminase (que pode ser facilmente encontrada no GastronomyLab, do chef Kaká Silva).
Bollito Misto
Inspirado no livro "O restaurante Fasano e a Cozinha de Luciano Boseggia"
Ingredientes (para 12 pessoas)
Para o Bollito
1 paleta ou pernil de vitela de ~1,5kg, desossado ou não
1,5kg de músculo
1kg de carne seca de primeira
2 peitos de frango desossados grandes, ~1kg
1 zampone (pé de porco recheado, normalmente disponível das marcas conhecidas de embutidos italianos)
Caldo de carne - aqui não tem jeito, tem que fazer fresco mesmo, é essencial no prato....
Preparado Demi Glacé linha Chef Professional Nestlé (opcional), Carne e Frango
Cebola, cenoura, salsão, tomilho fresco (como aromáticos)
1 repolho grande
1kg de batatas pequenas
20 mini cenouras
30 mini cebolas pérola
Para a Salsa Peará
100 g de tutano de vitela
1 litro de caldo de carne
80 g de farinha de rosca (nem pense em comprar o lixo que se vende em pacotinho; compre um bom pão italiano, fatie, torre e moa rusticamente no processador)
4 colheres (sopa) de parmesão ralado
sal e pimenta a gosto
Para a Salsa Verde
350 g de salsinha
250 g de pepinos em conserva
1 xícara de azeite extravirgem
1 xícara de vinagre de vinho branco
2 dentes de alho
50 g de aliche
50 g de alcaparras
1 ovo cozido
sal e pimenta a gosto
Preparo
Com antecedência, eventualmente dias, faça o caldo de carne. Eu resolvi fazer tudo de uma vez só, é muito trabalho junto. No meu caldo usei vértebras de vitela, mas pode-se usar osso de canela de boi, etc. De qualquer forma, esse é assunto para outro post. Em dúvida? Faça o rapa no freezer do Santa Luzia, vai precisar de muitos potinhos.....
Coloque a vitela, o músculo e o frango numa salmoura a 10% (100gr de sal para cada litro de água). Isso garante que a carne não solte filamentos brancos de proteína durante o cozimento, e já deixa o ponto de sal correto. Pode-se aromatizar a salmoura com ervas, alho, rodelas de laranja, etc. Descanse na geladeira por 1 a 2 horas.
Coloque a carne seca para dessalgar em água fria por 24 a 48 horas, trocando sempre. Eu não fiz isso, tive que apelar e dessalgar a quente, escaldando como se fosse para feijoada. Show de horror, mesmo depois de horas de cozimento ficou parecendo um bíceps do Tutancâmon, nem servi. Isso porque a carne seca já é desidratada pelo sal, e o escaldamento faz contrair ainda mais as fibras, encolhendo e endurecendo a carne - já a dessalga a frio relaxa e rehidrata as fibras. Vivendo e aprendendo...
Retire as carnes da salmoura, seque superficialmente, e vamos para a "colagem" com transglutaminase, se quiser fazê-lo: pulverize a transglutaminase sobre a carne e vá juntando as partes; em seguida enrole em muito filme plástico. Leve à geladeira por aproximadamente 4 a 5 horas. Faça o mesmo com o Tutancâmon, quer dizer, a carne seca (depois de colado ficou ainda mais grotesco, somente continuei com esse ingrediente por curiosidade científica...)

Coloque todas as carnes (menos o zampone) no termocirculador a 80C e vá dormir, mas não muito: depois de 8 horas, retire o frango e dê um choque térmico com gelo. Deixe as outras carnes mais 3 horas no banho. Quando faltar 1 hora para servir, volte o frango e acrescente o zampone ao termocirculador.
Antes disso, porém, prepare os legumes: aqueça o caldo de carne e cozinhe tudo até ficar macio: mini cebolas, mini cenouras, batatinhas, o repolho inteiro. retire conforme o ponto, e coloque em recipientes para servir, cobrindo com uma concha de caldo. O repolho é cortado ao meio, o talo retirado, fatiado, e ganha uma concha de caldo também. Embora não aparente, essa operação consome muito caldo, absorvido pelos legumes
Em paralelo, prepare os dois molhos: para a Salsa Peará, cozinhe o tutano no caldo de carne por 1 hora e passe por uma peneira. Junte a farinha de rosca aos poucos, mexendo sempre. Cozinhe por alguns minutos. Retire do fogo. Acrescente o parmesão ralado. Tempere a gosto com sal e pimenta moída na hora. Para a Salsa Verde, bata no liquidificador o aliche, os pepinos, as alcaparras, o ovo, o vinagre, o azeite e o alho. Junte a salsinha, tempere com sal e pimenta a gosto e bata mais um pouco. O Peará, meu preferido, ficou absolutamente idêntico ao do Parigi. O Verde ficou bom, mas bem diferente do Parigi, onde aparentemente a maioria dos ingredientes é picado na ponta da faca. De qualquer modo, talvez fosse a versão do Fasano na época, mesmo a aparência das fotos que pesquisei. Ficou mais ácido que gostaria, mas bem bom também. Quem conhece o prato vai notar a ausência de outros 2 molhos: raiz forte (dispenso...) e Mostarda di Cremona, que não achei pronta, nem os "pertences" pra produzí-la. Substituí por uma sensacional mostarda doce de laranja que comprei na Firestone Vineyards na Califórnia (vinhos medíocres, lugar lindo, produtos gourmet de ponta) e uma geléia espanhola de maçãs e especiarias que ganhamos de nossa comadre, fantástica.

Fatie as carnes, e leve toda a infinidade de travessas à mesa.
Refastelem-se.
Veredicto: melhor que eu esperava. As carnes suculentas, no ponto. A brincadeira da transglutaminase fez o músculo se transformar num cilindro bonito de carne e gelatina macia (vide foto de capa), os peitos de frango colaram tão bem que não se divisava a emenda, parecia um enorme foie gras (cor e formato), a carne seca do Tutancâmon foi direto pro museu do Cairo, mas não fez falta. Enfim, missão cumprida.
Este prato eu tive o prazer de experimentar. Estava muito bom! Algumas mulheres torceram o nariz para as carnes, não conseguiram encarar o cottechino, mas eu já venci os preconceitos visuais ou de origem. Como de tudo, principalmente, o que é saboroso e tem tradição. A combinação saborosa, o pirão realmente com personalidade e dando um toque de junção.
ResponderExcluirDellícia!!!Eu trabalhei no Parigi e degustava essa especialidade todas as quartas e domingos rsrs...
ResponderExcluirHummm, finalmente achei a receita quase original...quer dizer, cada região tem a sua fórmula. Mas o do Parigi é muuito bom! arabéns, vou anota e fazer esse domingo em casa.
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